30/11/2017

6 coisas que não me contaram sobre viagens missionárias de curto prazo



Publicado por ultimatojovem
Por Rachel Sousa
 Sempre digo que todo cristão deveria fazer uma viagem missionária de curto prazo pelo menos uma vez na vida. É um engano pensar que missão é uma exclusividade daqueles que tem um “chamado” especial, já que todos são chamados. A ordem de Jesus foi para todos os seus seguidores, para que, enquanto seguem na jornada da vida, preguem o Evangelho e façam discípulos. O chamado é universal, a vocação é pessoal.
Certamente alguns são vocacionados a uma vida dedicada inteiramente ao que chamamos de “missões”; vocacionados especificamente para a pregação do Evangelho e o discipulado das nações. Mas o envolvimento com a proclamação do Evangelho é tarefa para a Igreja de Cristo e, portanto, para todos os cristãos.
E aí entra a importância das viagens missionárias de curto prazo. Nem sempre dispomos de semanas ou meses, mas até mesmo viagens de alguns dias podem despertar nosso coração e gerar bons frutos. Aqui vão seis pontos a serem considerados nesse contexto:
1 – Cuidado com a autopromoção
Em minhas viagens, especialmente no tempo que passei morando em bases missionárias, conheci muitas equipes em viagens de curto prazo. E nelas encontrei de tudo um pouco.
Algumas pessoas infelizmente participam de viagens de curto prazo com o intuito de explorar a realidade de pobreza e sofrimento, para se autopromover em suas igrejas, ou ainda para aliviar a consciência, na ideia de que “fez seu papel”.
Viagens de curto prazo não são para isso! São incríveis oportunidades de, em primeiro lugar, cooperar com aquilo que Deus está fazendo através de seus servos em favor de pessoas que ainda não conhecem o evangelho. Somos cooperadores de Deus, coadjuvantes em seu plano eterno para o homem.
2 – É um tempo de aprendizado intensivo
Viagens de curto prazo são uma ferramenta de Deus para nos ensinar e alinhar nosso coração. Já falei essa frase e também já ouvi dezenas de pessoas dizendo a mesma coisa: “Fui para a viagem acreditando que ia dar algo e acabei recebendo muito mais”.
Nessas viagens somos despertados de nossa maneira de viver, muitas vezes emaranhada em egoísmo e individualismo, centrada em necessidades temporárias. Lembro-me de que quando voltei da minha primeira viagem, sentei e comecei a chorar ao olhar para o meu armário, me perguntando por que precisava de tantas peças de roupa.
Viagens de curto prazo são mecanismos divinos de transformação do nosso caráter, nos revelando nossa dificuldade de trabalhar em equipe, de servir de todo coração, de abrir mão dos nossos direitos em favor do nosso irmão (acredite, os maiores conflitos não vem de choques com a comunidade, mas com os membros da própria equipe e com os missionários locais).
3 – Nada de agir na emoção
A experiência das viagens de curto prazo pode ser uma porta para a missão em tempo integral. Assim como aconteceu comigo, ao experimentarem parte da realidade do campo missionário muitas pessoas são profundamente impactadas com a responsabilidade da pregação do evangelho e veem-se chamadas a responder à ordem de Cristo. Mas é preciso tomar cuidado com as decisões baseadas em pura emoção. Já vi pessoas retornando para o campo depois de uma viagem de curto prazo e, em pouco tempo, não aguentando a pressão.
Se você foi despertado em uma viagem missionária, é hora de investir tempo em oração, colocando o coração diante de Deus até que você receba orientação sobre os próximos passos. Às vezes isso significará investir em estudo e preparo, investimento e suporte financeiro. Pra mim, significou seis meses no escritório, um ano servindo a igreja local e fazendo algumas outras pequenas viagens, dois anos servindo em duas bases missionárias no Nordeste em tempo integral, para ao final desse período retornar para o atual tempo de estudos teológicos e missiológicos, até que eu seja reenviada para um longo prazo no campo missionário.
4 – Cuidado com as promessas
Muitos voluntários em viagens missionárias de curto prazo trocam contatos com a comunidade local e prometem doações e recursos. Outros prometem que voltarão. E, infelizmente, a maioria se esquece de suas promessas uma semana depois de retornar para sua realidade. Já ouvi de moradores locais sobre a decepção com pessoas que nunca sequer responderam a uma mensagem de texto enviada.
Precisamos ser conscientes de que somos representantes de Cristo. Atitudes como essa podem ferir pessoas que começaram a ouvir sobre o evangelho e torná-las indiferentes aos esforços dos missionários locais.
5 – Impacto evangelístico x Projeto de longo prazo
Já começo dizendo que não sou contra impactos evangelísticos, de forma alguma! Porém, particularmente, não sou incentivadora de viagens focadas em impacto evangelístico em locais que ainda não tenham uma igreja local sendo plantada ou um missionário trabalhando em um projeto de longo prazo, ou, ainda, se a igreja enviadora não está assumindo a responsabilidade de iniciar um projeto após o impacto no local. Explico o motivo.
Temos a responsabilidade, como Igreja, não apenas de pregar a todas as nações, mas de fazer discípulos. Isso significa cuidar, acompanhar, ensinar. E isso leva tempo. Impactos evangelísticos rendem frutos maravilhosos para o Reino, como curas, libertação e conversão. Contudo, se não houver quem cuide dessas pessoas, o risco de sincretismo é enorme.
Por isso incentivo que igrejas locais invistam esforços de viagens missionárias em locais que já dispõem de missionários em tempo integral, especialmente em projetos em fase inicial. Dessa forma, saberemos que pessoas alcançadas durante o impacto evangelístico continuarão a ser cuidadas e ensinadas depois que a equipe for embora.
6 – Esteja disposto a trabalhar em equipe
Tenha uma mentalidade de serviço em relação à sua equipe e, especialmente, aos missionários locais. Conflitos interpessoais no contexto missionário são mais do que comuns. Seja pelo choque cultural, seja pelas dificuldades pessoais de interação, a verdade é que em toda viagem teremos situações de conflito.
Em uma das minhas primeiras viagens, estava servindo com uma equipe de coreanos de primeira geração, e eu era a única brasileira e a mais jovem do time. Embora eu seja de uma igreja coreana e já estivesse habituada a algumas diferenças no trato pessoal, nada me preparou para aquela viagem.
Um ano antes eu tinha liderado uma equipe para o sertão do Piauí, então eu acreditava piamente que já sabia como fazer esse tipo de viagem. Mas experimentei de tudo um pouco. A dificuldade de comunicação (apenas duas pessoas conseguiam traduzir para mim, pois toda a comunicação era em coreano) me levou a cometer diversos erros, porque não havia recebido os avisos de forma correta, o que levou a má interpretação por parte da liderança, que acreditou que eu estava desafiando-os.
Fui severamente repreendida na frente de todos os outros membros da equipe (líderes, não façam isso, por favor), o que me levou a tentar argumentar e explicar o meu ponto de vista sobre o que estava acontecendo. Contudo, na cultura coreana, argumentar diante de uma repreensão é tão ofensivo quanto gritar e bater em alguém. Imaginem a situação!
Na época, meu pensamento era o de que estava sendo tolhida em tudo aquilo que acreditava que carregava como talento no campo missionário. Não tinha liberdade para interagir com as pessoas da base e seus projetos, não podia ministrar livremente nas atividades que realizámos.
Graças a Deus tive um pastor coreano que me abraçou como filha e que começou a me ensinar como sua cultura interpretava determinadas atitudes e me direcionando em relação a como eles esperavam que eu me comportasse. A viagem terminou bem, mas levei algum tempo para me recuperar e entender o que Deus queria me ensinar nesse tempo. Hoje conto sobre ela com a certeza de que foi fundamental para me quebrar e me ensinar preciosidades sobre meu caráter e sobre missões que, de outra forma, eu talvez não aprendesse.
Algo essencial e geralmente esquecido pelas equipes de viagens de curto prazo é o fato de que estamos servindo um trabalho em andamento. Valorizem os missionários locais. Perguntem qual é a melhor forma de executar os planos. Ouçam informações sobre a comunidade local, suas preferências, seu histórico. Seja humilde, assuma uma postura de aprendiz e não de professor, de receptor e não apenas de doador. Permita que esse tempo seja uma experiência profunda e transformadora com Deus.
UM RECADO FINAL
Acredito em uma grande colheita, pois os campos estão brancos. Acredito em uma Igreja Gloriosa que se levanta entre as nações e proclama audaciosamente o evangelho de Cristo Jesus. Acredito em jovens e velhos respondendo à pergunta que tem ecoado por gerações: a quem enviarei?
Minha oração é pelo despertamento dos últimos dias. Por um derramar do Espírito sobre a Igreja, para que levantem os olhos de seus próprios umbigos e vejam os campos brancos. Homens e mulheres que não amaram suas próprias vidas mais do que a Glória de Deus entre os povos.
Permita-se ser tocado e transformado por aquilo que Deus está fazendo entre as nações. Disponha-se a ser um cooperador de Deus!
Rachel Sousa, 29 anos. Natural de Brasília, mora em São Paulo há 10 anos e congrega na Igreja Missionária Oriental de São Paulo (IMOSP). Cursa o mestrado em Missões no Seminário Teológico Servos de Cristo.

Fonte: Ultimato
Link: http://ultimato.com.br/sites/jovem/2017/11/23/6-coisas-que-nao-me-contaram-sobre-viagens-missionarias-de-curto-prazo/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim+Jovem+138

13/11/2017

Missionária Helen Roseveare (1925 - 2016)

Helen Roseveare nasceu em Cornwaal, na Inglaterra em 1925 em um lar aristocrata. Seu pai foi um renomado matemático, nomeado cavaleiro em razão de seus serviços patrióticos durante a guerra. Aos doze anos entrou numa escola para meninas. Em Cambridge formou-se em medicina. Foi lá que no primeiro ano passou por uma experiência de conversão. Em 1953, navegou para o Congo, mesmo solteira, com o objetivo de servir ali com a Cruzada de Evangelização Mundial. Foi o início de sua atividade missionária. Percebendo ao chegar no Congo, a profunda carência na área de saúde, planejou um centro preparatório onde a Bíblia e a medicina básica fossem ensinados para as enfermeiras, que após treinadas, retornariam às suas cidades de origem como evangelistas leigas e prontas para oferecer os cuidados médicos preventivos à população carente. Helen cooperou ainda na construção de um hospital no Congo e em Nebobongo. Tudo isso foi realizado em meio a difilculdades e oposições das mais diversas. Em 1957, já em Nebobongo, foi arbitrariamente afastada de suas funções, sendo substituída pelo Dr. John Harris. Os fatos lhe geraram dor e tristeza. foi claramente perseguida e injustiçada por colegas missionários. Em 1958, de férias, retornou para a inglaterra profundamente desiludida com a tarefa missionária. Achando que seus problemas eram devidos ao fato de ser solteira, pediu a Deus em oração um marido-médico, o que não lhe foi atendido. Entendeu que Deus poderia suprir-lhe todas as necessidades, sem que fosse preciso casar-se. Em agosto de 1964 inimigos da cruz de Cristo tentaram envenenar nossa heroína mas seu amado cãozinho, pela providência de Deus, comeu sua comida vindo a morrer logo em seguida.Mais tarde ela mesmo confessou: “ No auge da guerra, eu e mais dezoito mulheres e crianças fomos tiradas de nossas casas e lançadas na selva rodeadas por dezenas de soldados inimigos que tinham os piores planos possíveis contra nós, mas em meu coração havia paz, pois me sentia previlegiada em sofrer por causa de Jesus” Apesar de ser estuprada e humiliada pelos soldados africanos Helen descobriu que Deus deu a ela amor ainda maior pelo povo do Congo, tanto que em 1965 ela voltou ao Congo sempre dizendo que sua dolorosa experiência fêz ela entender que se “com Ele sofremos, com Ele também reinaremos…” Helem e outras pessoas ficaram presos por cinco meses, sofrendo as maiores atrocidades, sendo libertada em 31 de dezembro de 1964 Depois deste incidente Helen foi severamente provada e testada em sua fé, quando muitas noites de terror e agonia vieram sobre ela, após ela ver sua casa ser totalmente saqueada pelos militares, nesse tempo ela conta que satanás por muitas vezes tentou convencê-la que ela era uma missionária falida e derrotada. Após agonizar em oração pedindo ódio pelo pecado, ela recebeu a dádiva do Espírito Santo e o Senhor concedeu a ela um amor ainda mais profundo pelos africanos Após dois anos, com uma melhor estabilidade política no Congo, sentiu-se impussionada a voltar à África, o que fez em março de 1966, reassumindo seu cargo de missionária-médica. Anos difíceis se seguiram. O novo espírito nacionalista, produziu nos nativos um sentimento de rejeição. A geração mais jovem não tinha o respeito devido por aquela que se sacrificara tanto pelo Congo. Em 1973 a Dra. Helen deixou a África, após vinte anos de serviços, sem o devido reconhecimento e profundamente amargurada. A amargura foi aos poucos desaparecendo, para surgir um revigoramento espiritual em sua vida. Entendia que todo o que passara fazia parte de um trabalhar de Deus em sua vida, lhe preparando para uma nova etapa. Era o oleiro modelando o vaso, para continuar usando-o para a sua glória. Desde então, a Dra. Helen Roseveare tornou-se uma das mais solicitadas e aclamada conferencista internacional, realizando palestras sobre as missões cristãs, edificando, encorajando e testemunhando que todo sofrimento aqui nesta vida, não se compara com o que Jesus passou por nós.


Ouça um pouco da história da missionária Helen Roseveare narrada por Ronaldo Lidório

03/11/2017

Quem são os menos evangelizados no Brasil?

Deus chamou toda a Igreja para proclamar todo o Evangelho em todo o mundo. Há ainda mais de 2.000 povos no mundo sem o conhecimento do Evangelho, cerca de 3.000 línguas sem um verso bíblico em seu idioma e 2 bilhões de pessoas que não conhecem o Senhor Jesus.

No Brasil há oito segmentos reconhecidamente menos evangelizados, sendo sete socioculturais e um socioeconômico. 

1. Indígenas
Com 117 etnias sem presença missionária e sem o conhecimento do Evangelho1. Estas etnias, com pouco ou nenhum conhecimento de Cristo, espalham-se por todo o Brasil com forte concentração no Norte e Nordeste2

2. Ribeirinhos
Na bacia amazônica há 37.000 comunidades ribeirinhas3 ao longo de centenas de rios e igarapés. As pesquisas mais recentes apontam a ausência de igrejas evangélicas em cerca de 10.000 dessas comunidades4

3. Ciganos (sobretudo da etnia Calon)
Há cerca de 700.000 Ciganos Calon no Brasil5 e apenas 1.000 se declaram crentes no Senhor Jesus. Os Ciganos espalham-se por todo o território nacional nas grandes e pequenas cidades, vivendo em comunidades nômades, seminômades ou sedentárias.

4. Sertanejos
Louvamos a Deus por tudo que tem ocorrido no Sertão nos últimos 10 anos – centenas de assentamentos sertanejos evangelizados e muitas igrejas plantadas. Há, porém, ainda 6.000 assentamentos sem a presença de uma igreja evangélica6

5. Quilombolas
Formados por comunidades de afrodescendentes que se alojaram em áreas mais ou menos remotas nos últimos 200 anos. Há possivelmente 5.000 comunidades quilombolas no Brasil, sendo 3.524 oficialmente reconhecidas7. Estima-se que 2.000 ainda permaneçam sem a presença de uma igreja evangélica8

6. Imigrantes
Há mais de 100 países bem representados no Brasil por meio de imigrantes de longo prazo com uma população de quase 300.000 pessoas9. Dentre esses, 27 são países onde não há plena liberdade para o envio missionário ou pregação do Evangelho. Ou seja, dificilmente conseguiríamos enviar missionários para diversos países que estão bem representados entre nós, sobretudo em São Paulo, Brasília, Foz do Iguaçu e Rio de Janeiro. 

7. Surdos, com limitações de comunicação 
Há mais de 9 milhões de pessoas nesta categoria em nosso país e menos de 1% se declara crente no Senhor Jesus10. Há pouquíssimas ações missionárias especificamente direcionadas para os surdos em todo o território nacional.

8. Os mais ricos dos ricos e os mais pobres dos pobres
O oitavo segmento não é sociocultural como os demais, mas socioeconômico. Divide-se em dois extremos: os mais ricos dos ricos e os mais pobres dos pobres. As últimas pesquisas nacionais demonstram que a presença evangélica é expressiva nas escalas socioeconômicas que se encontram entre os dois pontos, porém sensivelmente menor nos extremos11. Em alguns Estados brasileiros há três vezes menos evangélicos entre os mais ricos e os mais pobres do que nos demais segmentos socioeconômicos12.

A Igreja de Cristo foi chamada para ser sal da terra e luz do mundo onde estiver e por onde passar (Mt 28.19). Foi-lhe entregue também um critério de prioridade nas ações evangelizadoras: onde Cristo não foi anunciado (Rm 15.20). É, portanto, momento de orar pelo mundo sem Cristo, por a mão no arado e não olhar para trás.

Fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/quem-sao-os-menos-evangelizados-no-brasil



Assista o vídeo abaixo produzido pela AMTB

31/10/2017

A Reforma Protestante e Missões

A Presença da Igreja como agente de expansão da Palavra pregada. A Reforma Protestante desencadeada com as 95 teses de Lutero divulgadas em 31 de outubro de 1517 foi sobretudo eclesiástica em um momento em que todos os olhares se voltavam para a reestruturação daquilo que a Igreja cria e vivia. Renasceram assim os dogmas evangélicos. A Sola Scriptura defendia uma Igreja centrada nas Escrituras, Palavra de Deus; a Sola Gratia reconhecia a salvação e vida cristã fundamentadas na Graça do Senhor e não nas obras humanas; a Sola Fide evocava a fé e o compromisso de fidelidade com o Senhor Jesus; a Solus Christus anunciava que o próprio Cristo estava construindo Sua Igreja na terra sendo seu único Senhor e a Soli Deo Gloria enfatizava que a finalidade maior da Igreja era glorificar a Deus. 


A Missão da Igreja, sua Vox Clamantis, não fez parte dos temas defendidos e pregados na Reforma Protestante de forma direta. Isto por um motivo óbvio: os reformadores como Lutero, Calvino e Zuínglio possuíam em suas mãos o grande desafio de reconduzir a Igreja à Palavra de Deus e assim todos os escritos foram revestidos por uma forte convicção eclesiológica e sem uma preocupação imediata com a missiologia. Isto não dilui, entretanto, a profunda ligação entre a reforma e a obra missionária por alguns motivos: 

a) A Reforma levou a Igreja a crer que o curso de sua vida e razão de existir deveriam ser conduzidos pela Palavra de Deus (submetendo o próprio sacerdócio a este crivo bíblico) e foi justamente esta ênfase escriturística que despertou Lutero para a tradução da Palavra na língua do povo e inspirou posteriormente centenas de traduções populares em diversos idiomas fomentando posteriormente movimentos como a Wycliffe Bible Translators com a visão da tradução das Escrituras para todas as línguas entre todos os povos da terra. Hoje contamos com a Palavra do Senhor traduzida para 2.212 línguas vivas. João Calvino enfatizava que “… onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza… não há dúvida de que existe uma Igreja de Deus ”. O grande esforço missionário para a tradução bíblica resulta diretamente dos ensinos reformados. 

b) A Reforma reavivou o culto onde todos os salvos, e não apenas o sacerdote, louvavam e buscavam a Deus. E Lutero em uma de suas primeiras atitudes colocou em linguagem comum os hinos entoados nos cultos. Esta convicção de que é possível ao homem comum louvar a Deus incorporou na Igreja pós reforma o pensamento multiétnico onde “o desejo de levar o culto a todos os homens” como disse Zuínglio não demorou a ressoar na Igreja culminando com o envio de missionários para o Ceilão pela Igreja Reformada holandesa no século XVII que disparou um progressivo envio missionário e expansão da fé Cristã nos séculos que viriam. Um culto vivo ao Deus vivo foi um dos pressupostos reformados que induziu a obra missionária a levar este culto a todos os homens transpondo barreiras linguísticas, culturais e geográficas. 

c) A Reforma trouxe a Glória de Deus como motivo de vida da Igreja e isto definiu o curso de todo o movimento missionário pós reforma onde o estandarte de Cristo, e não da Igreja, era levado com a Palavra proclamada entre outros povos. Os morávios já testificavam isto quando o conde Zinzendorf, ao ser questionado sobre seu real motivo para tão expressivo e sacrificial movimento missionário, responde: “estou indo buscar para o Cordeiro o galardão do Seu sacrifício”. John Knox na segunda metade do século XVI escreveu que a Genebra de Calvino era “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos ”. O centro das atenções portanto era Cristo e nascia ali um modelo cristocêntrico de pregação do evangelho que marcaria o curso da história missionária nos séculos posteriores. 

Mas sobretudo a Reforma Protestante passou a Igreja pelo crivo da Palavra e isto revelou-nos a nossa identidade bíblica, segundo o coração de Deus. Seguindo o esboço desta eclesiologia reformada poderemos concluir que somos uma comunidade chamada e salva pelo Senhor com uma finalidade na terra. Zuínglio, logo após manifestar sua intenção de passar a pregar apenas sermões expositivos em janeiro de 1519 afirmou em sua primeira prédica que “a salvação põe sobre nós a responsabilidade de obediência ”. 

Seguindo esta ênfase eclesiológica sob cunho escriturístico vemos que Ekklesia, Igreja, é um termo composto que pode ser dividido em “Ek” (para fora de) e “Klesia”, que vem de “Kaleo” (chamar). Etimologicamente pode, portanto, ser entendida como “chamada para fora de” o que a principio nos dá uma idéia mais real desta comunidade dos santos que entra em um templo mas precisa postar seus olhos além muros. Obviamente o termo também está ligado a “agrupamento de indivíduos” e de certa forma a “instituição” porém em todo o N.T. adquire o conceito de “comunidade dos santos” e fora MT. 16:18 e 18:17 está ausente dos evangelhos aparecendo, porém, 23 vezes em Atos e mais de 100 vezes em todo o Novo Testamento. Gostaria que déssemos atenção neste momento a alguns conceitos neotestamentários e reformados para esta comunidade dos filhos de Deus que foram demoradamente estudados pelos reformadores e impulsiona a Igreja hoje para uma obra dinheiro missionária baseada na Sola Scriptura e para a glória de Deus. 

1. Igreja de Deus 
Comumente encontramos no N.T. a expressão “Igreja de Deus” (“Ekklesia tou Theou”) o que evidencia que esta Igreja veio de Deus e pertence a Deus. É uma comunidade que possui Deus como fonte; é eterna, espiritual e universal. Não provém de elucidação humana ou de uma obsessão nutrida por um grupo de loucos há 20 séculos, antes foi articulada por Deus, formada por Deus, é pertencente a Deus e permanece ligada a Deus. Independente das deturpações da fé, das ramificações que se liberalizaram, dos que se perderam pelo caminho, a Igreja permanece, pois é posse de Deus. Desta forma a “Ekklesia tou Theou” necessita caminhar de acordo com o palpitar do coração de Deus, a quem pertence, traduzindo para sua vida os desejos profundos deste coração. É baseados nesta verdade que necessitamos renovar nosso compromisso com a eclesiologia bíblica – um grupo de santos chamado por Deus para a inusitada tarefa de transtornarem o mundo com o evangelho de Cristo. 

2. Igreja local 
Também no N.T. encontramos o conceito de “igreja local”. Em 1o Co 1:12 vemos, por exemplo, a expressão “Igreja de Deus que está em Corinto”, onde “que está” (“te ouse”) indica a localidade da igreja. Mostra-nos que os santos de Corinto pertencem à Igreja, e não que a Igreja pertence à Corinto, o que deve ficar bem claro. Nos últimos 2.000 anos a Igreja adquiriu uma forte tendência de se “localizar” condicionando-se tão fortemente a uma cidade ou bairro a ponto de alguns chegarem a defender uma “demarcação” geográfica da responsabilidade da Igreja impedindo trabalhos fora da sua “jurisdição”. Num conceito neotestamentário “Igreja” é uma comunidade sem fronteiras e, portanto, creio que há necessidade de sacramentalizarmos mais os santos e menos os templos. Missões não é um programa eclesiástico, é a respiração da Igreja. Lembro que na tribo Konkomba no oeste africano há uma expressão que diz: “respiração é vida – não é preciso pensar para respirar; não é preciso pensar para viver”. 

3. Igreja humana 
Também dentro do conceito de “Igreja” nos deparamos no N.T. com um perfil bastante humano. Em 1 Ts 1:1 por exemplo vemos “igreja de Tessalônica” (“ekklesia Thesalonikeon”) dando-nos a idéia daqueles que são Igreja também sendo Tessalônicos, cidadãos de Tessalônica. 

Mostra-nos o fato de que por serem “Igreja” não significa que deixam de ser cidadãos, patriotas, carpinteiros, lavradores, comerciantes, desportistas, pais, mães ou filhos. “Igreja” no N.T. não é apresentada como uma comunidade alienante, mas como uma comunidade que abrange o homem em seu contexto humano fazendo-nos entender que esta Igreja não foi separada do mundo e sim purificada dentro dele. Mostra-nos também que na obra missionária não há super homens mas sim gente como a gente tendo o privilégio de espalhar o Evangelho de Cristo além fronteiras. 

No livro de Atos a humanidade passo a passo era chocada com a fé daqueles que “transtornavam o mundo”, onde o viver é Cristo, o objetivo era ganhar almas, a alegria era a adoração, o que os unia era a verdadeira comunhão, o amor era traduzido em ações, os fortes guiavam os fracos, as dificuldades eram enfrentadas com oração, a paz enchia os corações e todos, mesmo sem muita estrutura humana, possuíam como finalidade de vida apenas testemunhar do seu Mestre. Era uma Igreja visionária formada por gente limitada como nós. 

Entretanto quando olhamos para esta Ekklesia do Senhor Jesus no contexto embrionário do Novo Testamento a pergunta que salta aos olhos é: qual deve ser a principal motivação dos santos para o envolvimento com a obra missionária mundial fazendo Cristo conhecido entre todos os povos da terra ? Nesta expectativa olhamos para Paulo o qual, como missiólogo, expôs aos Romanos a nossa real motivação bíblica e reformada. 

Para isto é preciso reler Romanos 16:25-27 quando o apóstolo, encerrando esta carta de grande profundidade missiológica, diz: 

“Ora, àquele que é poderoso para 
vos confirmar segundo o meu evangelho“ 
(fala de Deus) 

“conforme a revelação do mistério “ 
(o mistério é o Messias prometido a todos os povos) 

“e foi dado a conhecer por meio das Escrituras Proféticas” 
(este é o meio de Revelação) 

“segundo o mandamento do Deus eterno” 
(este é o meio de Eleição) 

“para a obediência por fé “ 
(este é o meio de Salvação) 

“entre todas as nações “ 
(Isto é Missões – a extensão do plano salvífico de Deus) 
Mas qual o motivo para este plano divino que visa a redenção de todos os povos? Ele responde no verso 27: 

“Ao Deus único e sábio seja dada glória …” 

É a glória de Deus. Este é o maior e mais importante motivo para nos envolvermos com o propósito de fazer Jesus conhecido até a última fronteira do país mais distante, ou da criança caída na esquina da nossa rua. 

Martinho Lutero, em um sermão expositivo em 1513 baseado no Salmo 91 afirmou que “a glória de Deus precede a glória da Igreja”. É momento de renovar nosso compromisso com as Escrituras, reconhecer que existimos como Igreja pela graça de Deus, orar ardentemente por fidelidade de vidas e entender que o próprio Jesus está construindo a Sua Igreja na terra. E quando colocarmos as mãos no arado, sem olhar para trás, nos lembremos: a razão da nossa existência é a glória do Deus. Pois Deus é maior do que nós.


23/10/2017

Palavra que transforma

Partilhamos a publicação do livro "Palavra que transforma". Trata-se de um curso bíblico desenvolvimento especialmente para grupos minoritários no Brasil, como Indígenas, Ribeirinhos, Sertanejos, Quilombolas e Ciganos. É formado por 12 temas bíblicos em uma abordagem relacional, informal e oral.

Pedidos podem ser feitos pelo email iraque.silveria@terra.com.br ou pelo site da Editora Descoberta: www.descoberta.com.br.
Extraido da página do facebook do Ronaldo Lidório


22/09/2017

Plantar Igrejas - David J. Hesselgrave

Um clássico de missões!!!
Este livro, em harmonia com a Palavra e caráter prático, oferece ao estudante de missões um método gradual para a plantação de igrejas.
Cada faceta de um plano mestre para alcançar novas comunidades é apresentada sob os aspectos teológico, cientifico e prático. As diferenças culturais são analisadas, e os missionários são orientados a transcender as próprias experiências culturais.
O livro mostra que não só a evangelização, mas também a fundação e o crescimento de igrejas encontram-se no âmago da missão cristã. Também se apresentam as responsabilidades dos líderes das igrejas, quais sejam: planejar estratégias e desenvolver recursos para adentrar novas áreas, converter pessoas e organizar igrejas. A estrutura para essas atividades de plantação de igrejas é o ciclo paulino.
As partes principais do livro são:
- o cristão e a missão cristã;
- o líder cristão e a missão cristã;
- a igreja missionária e a missão cristã;
- a igreja emergente e a missão cristã;
- a igreja missionária e a missão cristã (continuação).


David J. Hesselgrave foi professor de missões e diretor da Escola de Missões Mundiais e Evangelização da Trinity Evangelical Divinity School. Foi por muitos anos missionário no Japão, trabalhando na organização de igrejas. Foi formado pela Trinity Evangelical Divinity School e pela University of Minnesota (BA, MA, PHD). É autor do livro Comunicação Transcultural do Evangelho, volumes 1, 2 e 3.

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